Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

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domingo, 29 de julho de 2012

Férias

  
  Acabaram-se as férias de inverno. Logo é hora de acordar e a rotina das manhãs que iniciam-se muito cedo voltará. Três cafés rápidos, a disputa pelo lugar no banheiro, o preparo dos lanches, a última conferida nas mochilas para ver se está tudo ok. A correria para deixá-los em duas escolas diferentes, em pontos distantes da cidade, no horário certo. 

  Passamos as últimas duas semanas mais próximos, ficamos juntos quase que 24 horas dos quinze dias. Rimos muito, fomos ao cinema, comemos porcarias, passeamos, perdemos nosso Zoé ( o cachorro de estimação ), achamos ele no dia seguinte. Tomamos café mais tarde, trabalhei um pouco menos ( tive muito menos tempo para mim). Eles fizeram torta de bolachas com brigadeiro e confetes de açúcar. Retiramos filmes aos montes e assistimos vários juntos. Não vimos Tv.

  Um tempo precioso, de descobertas mútuas. Um tempo único e gratificante. Eles escolheram estar comigo mesmo eu não podendo mudar muito minha rotina. Eles entenderam-me e estiveram presentes. Foram nossas primeiras férias completas juntos. Foram os dias mais simples e mais cheios de importância de que consigo lembrar-me. Singelezas.

  Agora, eles dormem na ansiedade da volta às aulas; eu fico com o sentimento de gratidão por ter conseguido lembrar (mesmo no meio dessa bagunça toda que é a vida de uma mãe que cria os filhos sozinha ) que a qualidade do tempo é muito mais valiosa do que qualquer presente. 

  Triste saber que alguns abrem mão de tamanha preciosidade. Feliz de mim, que em muitos dias chego no trabalho com o cabelo bagunçado e sem maquiagem ( às vezes não dá tempo ), mas sempre dá tempo de vê-los caminhando seguros na direção de um belo futuro.

  E hoje vai ser assim, atrasada, com o cabelo estranho e feliz. Foram férias lindas!

  

  



  

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Coisas que esquecemos



  E nesse dia realmente a cidade acordou mais feliz. Delicadeza em alguns pontos estratégicos, outros inesperados. Sorrisos de surpresa, admiração. Sorrisos por sorrisos. Essa manhã de inverno, com carinha de dia emburrado, teve seu encantamento diante do novo. Rendeu-se ao belo.

  Os passantes andaram com um pouco mais de calma. A pressa dos passos em cada calçada deu lugar aos olhares mais lentos e cuidadosos, procurando o diferente no meio da confusão urbana.

  As expressões bonitas. Sorrisos gratuitos, ações pequenas e de proporções imensas. Sem barulho ou grandes transformações. Sem alarde. Sem orçamentos absurdos. Sem publicidades .Uma única pretensão: Ver sorrir. 

  E não foi mais um dia comum na nossa não tão mais pacata cidade. Feliz de quem passou e viu. Feliz de quem pode admirar, e ver com o coração aberto. Feliz de quem tomou a iniciativa. Feliz de quem ainda consegue ver beleza na simplicidade. 

  Quem fez disse: Não esqueças de olhar o centro amanhã, detalhes que às vezes as pessoas esquecem.  Olhe as praças, paradas de ônibus, algumas vitrines, postes, portas. Olhe com olhos de ver além!

  " Coisas que esquecemos " é o nome do projeto.









  

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma declaração de amor, sim

  

  Passava um pouco do meio dia, de um dia sentimental, em um mês frio. Naquela hora, o movimento de carros era menor, e podia-se andar calmamente. Uma jovem abaixada no canteiro de rosas, juntando galhos recém cortados. A praça das rosas. 

  A expressão do seu rosto era suave, de alegria autêntica. Não à conheço. Mas confesso que achei a cena toda muito linda. Imaginei o jardim dela. Pensei no carinho com que cuida de suas flores. Alguém especial que deve ter lindas rosas em um vaso na sala, ao lado da lareira. Alguém que sorri.

  O senhor que faz a poda das roseiras, deixa os galhos separados para que quem passe por lá possa levar mudas. Logo serão roseiras. É preciso esperar as primeiras geadas. A época certa. Sempre achei que jardineiros possuem talento de anjos.

  Esse jardineiro não cuida só da praça, ajudou o jardim da moça sorridente ficar mais bonito. Ajudou vários outros jardins. E a moça, não cuida só de seu jardim, cuida das rosas na praça também. 

  E nesse dia, em que o sol apareceu no meio de um céu esparramado de azul, as rosas passeiam pela cidade carregadas por moto boys, as pessoas sorriem. Não é apenas o dia dos enamorados, é a celebração do amor.

   E para celebrar o amor, não é necessário que as rosas venham embrulhadas com laço de fita. 

  O amor pode caber assim, na simplicidade de um gesto de afeto do jardineiro. Na ternura de uma moça que gosta de plantar roseiras. Nas coisas pequenas. 

  O amor só precisa ser sentido todos os dias...

(  Há quem prefira margaridas, mas essa seria outra história  )



sábado, 2 de junho de 2012

É complexo ser simples!?




Tirar os sapatos e por alguns instantes sentir a terra tocando os pés, aproveitar esse tempo e (re)carregar as energias. Beber água de fonte. Desligar o telefone um pouco. Sentir O vento no rosto, ou nos cabelos, se ainda os tiver. Sentar com o cachorro no gramado e ver  o pôr do sol. Andar de balanço com(o) uma criança. Inspirar.

Conseguir respirar o ar puro. Fazer uma fogueira e ouvir a lenha estalando. Sentir a paz em uma oração. Ouvir o silêncio colorido através dos vitrais de uma igreja em uma tarde de sol.  Se não tiver sol, observar como dançam as flores de ipê com uma chuva leve. Ouvir  o badalar dos sinos. Uma Música.

Uma sopa, boa. Uma toalha macia depois de um banho reconfortante. O cheiro da salsa colhida na horta. O cheiro da salsa no molho de cheiro verde na prateleira do mercado. Pão quente. Uma taça de vinho tinto. Outra música.  Um cumprimento educado de um estranho. Passear no mercado público. Respirar.

Uma gentileza no trânsito. Uma palavra nova. Um olhar que brilha. Uma percepção do novo que chega. Uma brisa de mar. O pé na areia. Uma flor colorida. Uma margarida branca. Um almoço agradável com a família. Um telefone de alguém distante. Um pote de açaí. Um passeio pela biblioteca. Um livro. O livro.

Um café fresco. O cheiro do café fresco. Saúde para os espirros. Um arco íris. O casal de velhinhos de mãos dadas. Um chá com amigos. Uma carta ( receber ou mandar ). Uma bala de hortelã. Um casaco de malha no frio. Meias com dedinhos. Uma toca que cubra as orelha. 

Bolsos nos casacos. Carinho de vó. Cheiro de vó. Bolo de tarde. Chá para gripe. Banho para febre. Abraço para as dores que chá não cura. Silêncio que acolhe. Dormir que passa. Água fria para acordar. Massagem leve para relaxar.

Armários mais vazios. Menos sapatos. Suco de fruta fresca. Andar de bicicleta. Sorrir. Cantar. Ler. Verbos de dentro. Abraçar.  Sem apegos.

Se for para ser complexo, que seja simplificando a vida!



terça-feira, 8 de maio de 2012

Rascunho



Tinha apenas mais alguns minutos
uma Única palavra poderia ser escrita
algumas letras e a definição de toda sua escolha
o lápis não riscava.

De traçado leve,  quase como um borrão na folha branca

TEMPO


( o ponto final era em forma de lágrima no papel )

Caminhou em direção ao previsível, até não mais poder ser vista.


Ele olhou para mesa e não mais a viu. Caminhou rápido e apenas o papel o esperava.
Leu quase sem entender, teve que sentar para poder respirar melhor.
Olhava fixamente para a mesa com o escrito. Apenas Tempo.

Sim, entendia sim. Mas não podia crer, não queria crer.
Ele mudaria o Tempo. Faria dar Tempo, se preciso fosse faria um Tempo
Onde coubessem os dois.

Mas agora o tempo ficará preso para sempre naquela lágrima borrada em papel branco...


( Ficariam eles também presos, em Tempos diferentes... )





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Inventário das meias tristes

 


  Eu já perdi anel, telefone celular, o casaco que eu adorava. Perdi um quase amor, o horário do ônibus, documentos. Perdi a fome, uma chave, já perdi a voz. Fiquei triste com essas perdas, mas nada que se possa comparar ao sentimento da meia no seu singular.

   Tenho uma gaveta cheia delas, sem par. Olhando assim, guardadas, acho que elas são o que pode existir de mais triste. Uma meia sozinha, no meio de tantas outras meias sozinhas.

  Inteira, uma meia já é metade. Sozinha, o que é?  ( falta ) ? Sem saber o destino da sua outra parte,  esperando um retorno, um milagre.

  Guardar meia sem par é crueldade, uma maldade sem tamanho.

  A dor de não saber o porquê. A eterna dúvida. Espera constante. É apenas meia, mas inteira solitária e vazia, do seu lado, sem o par. Fica sem destino, para sempre no fundo de uma gaveta, não se transforma em nada, não vai à lugar algum.

  De tudo que pode ser triste: uma xícara sem a asa, um prato trincado, um bule sem tampa, um chinelo velho, um cobertor rasgado, uma sombrinha furada... Nada nunca será tão triste como a meia sem par.

 As outras coisas tristes, acabam tendo destino. Viram outros objetos, ganham outros formatos. Podem servir de vaso, virar pano, até ir para o lixo.

  O único consolo da meia é a gaveta escura, sem saber o que aconteceu do seu outro lado.

Somente meio meia.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Do Aroma que tem um cheiro



Não quero simplesmente suspirar, quero o cheiro.

Comer o cheiro leve da pêra e o cheiro doce dos morangos. Degustar as gotas do cheiro do vinho misturado na língua com a saliva morna, tua.

Para acordar, cheiro de laranja espremida, café fraco ainda, quente. Cheiro da água do banho, do pé no ladrilho frio. Cheiro da toalha macia e do roupão grande, corpo úmido. Cheiro de dia inteiro.

Sair de casa e encontrar o cheiro do sol, do asfalto e de tudo isso junto. Cheiro de plátanos perto da estrada.

Para o sorrir pode ser cheiro de salsa, chuva e o cheiro que tem os livros. Se for sorriso tímido pode ter cheiro de figos, gargalhada mistura cheiro colorido dos damascos. Os cheiros amarelos parecem sorrisos.

Se precisar de um cheiro calmante quero alecrim. E para as horas impacientes cheiro de mato, de terra e de água corrente. Cheiro de pedra e de madeira.

Para fugir do mundo nas quintas-feiras, só o cheiro do cinema. Depois cheiro de café e maçãs. Cheiro do vento leve. Um cheiro distante.

No fim do dia insano, um cheiro forte, escuro, uísque, cheiro de lugar sombrio. Cheiro com um pouco de música.

Quando for dormir quero o cheiro seco do lençol, o cheiro único do travesseiro. Se for dormir contigo quero apenas cheiro de corpo cru, nu. O cheiro do beijo e da boca, do corpo e da pele. Do suor e do cansaço. O cheiro da urgência  e depois cheirar teu sono até adormecer nele. Cheiro de noite pura.

No fim a saudade se afoga no cheiro... e sente, e lembra, e quer. Evapora (r)


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Uma teoria sobre os dias da Semana




Os dias e suas peculiaridades:

  A segunda costuma ser um dia improdutivo. Nada de relativa importância acontece ainda. O mundo está em recuperação, meio fora de ritmo. Se você sofrer um infarto, as chances de ser em uma segunda-feira é maior do que nos outros dias da semana.

 As terças são estressantes, o trabalho não acabado da segunda improdutiva está acumulado, o nível de estresse aumenta consideravelmente.

  As quartas são melosas. Dia de namorar, de cinema, de jantares românticos. Definitivamente é um dia doce para alguns e para outros, dia da dor de cotovelo.

 Quinta é  bastante produtiva, tudo que não foi resolvido durante a semana costuma ser despachado. As quintas também são sexys e não sou só eu que acho isso, um recente estudo Inglês considera essa data como a melhor  para o sexo, existe um aumento do cortisol natural, que estimula os hormônios sexuais. Quinta  é escolhido pelos amantes como o dia ideal, encontros clandestinos ocorrem com maior frequência nesse dia no horário do almoço.

  As sextas-feiras são caóticas, a preparação para o final de semana e o acúmulo de estresse dos dias anteriores, fazem das sextas, difíceis. O estresse  também contribui para o aumento de acidentes de trânsito, algo em torno de 17% mais do que nos outros dias. Deixar para resolver algo em uma sexta depois das 16 hrs pode ser bastante complicado.

 Os sábados são neutros para muitas pessoas, dia de descanso e organização doméstica. À noite o perfil muda um pouco, quem costuma sair  consome álcool em doses muito mais elevadas do que em qualquer outro dia da semana.

 Domingos de atletas de finais de semana e crianças super agitadas. Depressão pré-segunda também é comum.


 Como toda teoria precisa de exceções e segundo Nelson Rodrigues toda Unanimidade é burra, nos resta aproveitar o dia!


Carpe Diem !!!


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Giulia





   Em dois de abril, quinze anos antes eu nasci mãe, junto com a Giulia.

   Eram dedinhos que pareciam gravetos, contei cada um deles e as duas pombas continuavam na janela, nós duas vimos e sentimos a calma de nascer juntas.

   Foi a primeira filha, a primeira neta, a primeira sobrinha, enfim, modificou nossas vidas para sempre. E foram também os melhores pulmões que conheci, como chorava aquela criaturinha minúscula, aquele pacotinho encantado queria colo, e não qualquer colo, mas durante dois longos anos apenas o meu colo. Na verdade acho que a Giulia neta e sobrinha nasceu dois anos depois.

    Com oito meses começou engatinhar, com onze meses começou caminhar  e 15 dias antes de fazer um aninho, aquele misto de boneca e menina começou falar, nasceu naquele dia uma tagarela.

    A Giulia comilona nasceu logo depois, quando ficou na casa da tia Liza e para minha tragédia comeu cinco bananas ( eu havia dito a tia dela que ela não gostava de bananas ). Depois nasceu a Giulia vaidosa e só eu e ela saberemos quantos batons foram degustados nessa jornada. Em seguida nasceu a Giulia que contava histórias com seus livrinhos mágicos. Depois nasceu a bailarina, a musicista...

   Eu vi nascer todas essas Giulias, e muitas outras. Hoje vai nascer uma Giulia diferente e é um clichê lindo dizer que essa data é especial.

  É uma comemoração dela e um agradecimento meu silencioso, porque essa menina incrível que nasceu junto comigo naquela manhã de quarta-feira fria, me ensina tanto todos os dias que seria injustificável não agradecê-la.

  Queria ter te dado asas Giulia, queria ter de dado um castelo e um unicórnio. De tudo isso que eu sonhei, o mais perfeito aconteceu, já não tens mãos de graveto agora, tens quatro mãos fortes. As tuas e as minhas para sempre e para tudo que sonhares... Feliz aniversário querida!



quinta-feira, 22 de março de 2012

Sobre chás, madrugadas e rituais




  Das resoluções realmente importantes acho que fico com Meditar  e Tomar chá.

  De tudo que tenho analisado sobre vida própria e alheias também ( sim eu observo vidas alheias como forma de coletar dados para resoluções individuais importantes ), é complicado fazer algo que não te afete diretamente logo ali no futuro. Por exemplo:

  Informação demais te deixa alucinado;

  Declarar que é feliz? Pouco aceitável, precisamos do descontentamento, pelo menos parcial;

  Comer engorda;

  Beber não é solução e causa telefonemas indevidos ou no minimo inapropriados;

  Fumar causa câncer e tornou-se deselegante;

  Falar demais te faz chato;

  Ser diferente te torna esquisito;

  Tomar tuas próprias decisões pode parecer pouco feminino;

  Leite nem pensar por causa da intolerância;

  As atitudes acabam por te construir e se não tiver um projeto pronto, pode tanto virar uma cabana quanto um castelo e tem dias que não faço a menor ideia de como resolver problemas. Em outros resolvo, mas hoje não dá.

  O mundo tem tamanhos diferentes relacionado aos dias, tem dias que fica enorme e dias de mundo pequenininho, é relativo, é imprevisível ou absolutamente previsível. Indefinível.

  Falta conexão com o mundo, sintonia com o universo e falta principalmente colocar os pés no chão e sentir teu chão, ou meu chão, mas se me projetar como terceira pessoa pareço evasiva, se escrevo em primeira pessoa e sem artigos falam em narcisismo ou egocentrismo.

  Por isso acho que o que realmente importa e não causa contra- indicação é rezar, no silêncio enorme que couber em mim, e tomar chá, sem açúcar, numa temperatura agradável que não fira a cerimônia oriental e nem vá contra os costumes ocidentais.

  Talvez assim não agrade ninguém e muito menos desagrade, ou talvez abstraia tudo e nem sinta a diferença entre um e outro... No fim tanto faz.





quarta-feira, 21 de março de 2012

Um café




Passava bastante já do meio-dia, sentadas no café falavamos sobre projetos, faziamos planos, Ana almoçava e eu tomava um café. Fazia muito tempo que não conversávamos, e os assuntos vinham urgentes e misturados, a dieta seguiria por email, o roteiro seria iniciado e eis que surge a expressão derradeira:

- Ana, tem algo errado comigo.

- Não tem nada errado contigo, teus textos estão amadurecendo como tu, estão mais substanciosos. ( risos).

- Não Ana, não falo de escrever, falo de acontecer. Olha só: eu separo o lixo, tenho uma horta orgânica, tomo banho em menos de sete minutos, estou  lendo coisas bacanas e vendo bons filmes, te juro que me esforço para selecionar o que é importante e verdadeiro.

- Isso dá um baita texto guria. ( Muitos risos nessa hora )

- Então Ana, é sobre isso, eu queria sair dos textos, sair dos livros e dos filmes. Eu queria uma vida de verdade. Me sinto estranha, estagnada, enquanto tudo parece evoluir e caminhar em direção à etapas cumpridas de vidas que tornam-se completas, eu fico aqui presa em um tempo que nem sei definir.

- Guria!!!! ( Cara de espanto divertido) Parece que eu estou te lendo. Que doidera isso.

- Tu tá vendo Ana, falei que sou estranha, as pessoas não me vêem, só me lêem. Quando será que vai chegar a minha vez de fazer coisas? De senti-las?

- Não sei, pega aqui um pedaço desse chocolate, serotonina vai nos fazer bem hoje!!

- Não, esse chocolate tem coco, eu não gosto...

Fomos embora, Ana tinha dentista e eu precisava terminar várias coisas ainda daquele texto diário que apelidaram de rotina...

terça-feira, 13 de março de 2012

Pedacinhos



Eu queria ter fotografado as mãos de meu pai.
Queria saber fazer aquele risquinho acima do olho com delineador, mamãe gostava.
Queria ter aprendido rezar como minha avó e entender o vento de chuva como o vô.
Queria ler a amizade como minha irmã e queria ter passado mais tempo com meu irmão.
Queria ter o entendimento imparcial do meu melhor amigo.
Queria aprender me espreguiçar como meu gato e andar descalça na terra como minha irmã menor.
Eu queria entender de cinema como minha melhor amiga e queria saber fazer tranças no cabelo da minha filha. Queria entender de gente tanto quanto meu cachorro sabe de mim.
Queria dormir simples como meu filho.
Eu queria  sorrir leve como a menina que faz malabaries no sinal.
Queria que cada vontade dessa pousasse leve no meu coração hoje e que eu pudesse carregar esses pedacinhos de felicidade embrulhados com pano colorido e laço de fita...


quarta-feira, 7 de março de 2012

Baléla

 

O dia das mulheres é a maior piada do calendário.

   Dia da mulher? Para homenagear a luta das que foram queimadas por questionarem seus direitos? A conquista do direito de votar? O poder de decisão sobre o próprio corpo?

  Dia equivocado seria melhor definição.

  Dia histórico que se resume a sorrisos em troca de singelas rosas vermelhas. Parabéns pelo seu dia!
  Eu já comemoro o  meu aniversário, não preciso de outras  comemorações. Preciso apenas  da Consciência clara de ser humano, sem distinção de gênero, sem datas absurdas.

  Não precisamos de homenagens, é só igualdade. Uma igualdade branca, sem pretensões. Ser igual basta. Nem Lei Maria da Penha seria necessária, violência contra ser algum é permitida.

  Cada rosa aceita hoje com um largo sorriso de agradecimento pela homenagem é um passo na direção contrária da igualdade.

  Cada aperto de mão aceito é só mais um ponto para a superioridade velada.

  Socialmente bonito? Moralmente aceito? Não acredito. Apenas uma forma sutil de exercício do machismo social vigente, alimentado pela ala feminina que acredita em Dias Especias!!!



sexta-feira, 2 de março de 2012

Pausa


  Nunca sonhei contigo e nem sei como é teu perfume. Desconheço tua voz e sinto saudade dela. Me confundo com os sabores e só posso te imaginar ou te delirar, não sei ao certo ainda. Sei que às vezes és doce, outras nem tanto.

  Meu confidente sim, te cuido desde sempre, cuido desse sentimento. Logo estarás aqui para receber, é questão de tempo só. Um tempo único de esperar e mesmo sem estares aqui estas comigo.

  Talvez seja apenas uma esquizofrenia melada, peço-te desculpas e paciência, tenho uma dificuldade enorme em reconhecer essas coisas. Prometo me esforçar,  mas os dias estão ficando arrastados e as noites são cruéis comigo.

 Se eu não te encontrar logo, me faz um favor?  Deixa eu saber a tua música preferida, a espera com trilha sonora é muito mais leve...



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Reverência



 A menina que me sorri no sinal usa chapéu de arlequim, vestido de colombina e é feliz. Tem um sorriso largo, a pele pintada e a boca vermelha.

  Sorri em trocas de moedas, ou ganha moedas porque sorri. Imagino que sorri também quando não ganha moedas.

 Ela certamente tem um nome e uma história, abandona tudo e torna-se a menina do sinal.

  Ela salta leve entre os carros, saltita. Acho que ama alguém que a ama também, isso a faz feliz. Sorri em ângulos especias, sorri com os braços e com as pernas enquanto colhe moedas com seu chapéu colorido e, mal sabe ela que quem ganha somos nós.

  Será que ela mora em uma casa de porta amarela? Ou será que dorme em uma nuvem com forro de prata?
  Será que alguém já lhe pediu o nome? Será que alguma vez ela sente medo?

  Poderia ser professora do saber sorrir e saber emocionar os pobres mortais que param para ver sua graça simples, de arte de vida, que faz falta em todos aqueles carros apressados que passam e passam, só passam sem reparar que alguém os sorriu.

  Era só uma menina de chapéu colorido que me sorriu...



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O exercício de matar


   Hoje matei um homem.

  Matei de uma morte seca, sem dor, só a morte bastava. Preparei tudo em detalhes, cada movimento foi estudado, cada toque tinha o tempo certo. Não caberia arrependimentos.

  O primeiro olhar, o mais cruel, aquele em que os olhos ficam levemente apertados e as sobrancelhas arqueadas, um esboço de sorriso frio, olhar de anúncio da morte, ele é como uma carta de uma única palavra. Não existe dó nesse olhar.

  Sua existência assassinada com golpes exatos, até a morbidade crua se fez presente. O dia vestido de neblina foi jazigo, o  vento lhe serviria de lençol.

  Matei e olhei morrer. Uma morte de expurgo, simples e prazerosa como espremer uma espinha purulenta, que sangra pouco e purifica tua crueldade.

  Sem culpa esperei a última respiração, e os suspiros se confundiam, o meu de alívio, de prazer, quase um gozo vazio e o dele pesado e lento, frio, fechado cessou.

  Eu matei aquele homem porque precisava que a morte saísse de mim, não cabíamos mais, eu e ela, na mesma  casca.

   Matei pelo prazer de ver morrer o que me matava... Matei para não morrer...

( Pensei em enterrar o corpo, desisti. Achei melhor livrar-me dos velhos sapatos.)


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Encontro


  A dor é um sentimento dobrado. Me apego a ela. É minha, não quero fingir que não sinto.

   É um expurgo, chega como um abraço, laços de arame farpado. Quero sangrar por hoje. Sentir o coração gelar, a fisionomia endurecer. Sem sorrisos.

  Quero sentar e conversar, ouvi-la, de voz fria, seca e dura.

  Deixe-nos à sós.

  Colocá-la em um altar, ajoelhar-me e venerá-la. É sagrada, de uma beleza rara. Sem lítio, sem amortecências, só sentir. Deixar sair.

   Tem dias assim, não é ruim, um sofrimento libertador. Dor que cura a alma, sem curativos. Uma ferida que seca aberta.

   Dói toda dor de mim, toda dor está em mim, e eu à respeito. Deixo doer e só. Quando ela passa e vai embora  o corpo dorme exausto e a lembrança macia da dor acorda sem sentir.

   Surge o sol e com ele  encontro meu corpo abandonado que já pode sorrir.
 
(   fica a sensação de olhar para o lado e ver um lugar vazio, o café frio... )




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Olhos verdes




   Não se nasce pai, muitas vezes o filho nasce e o pai fica na incubadora, mas não vinga, é um desencontro. Dois estranhos e empatia não faz milagres.

   Meu pai  me ensinou ser mãe.

   Me ensinou também muito sobre a realidade dos distanciamentos, que nem sempre presença significa proximidade, e que a distancia é muito mais emocional do que física.

  Seria simples se a palavra pai não fosse tão carregada de simbolismos. E seria mais fácil ainda se os olhos fossem sempre da mesma cor e não mudassem se tem sol ou chuva, algumas vezes gelo. Talvez tudo esteja nos olhos. Talvez tudo falte aos meus olhos.

   Seria simples se fossemos simples.


     Eu pude escolher ser mãe. Enquanto filha, não tive essa escolha, o que não me torna menos falha.
  Eu preciso das integralidades.

  Talvez alguns pais não tenham escolhido seus títulos familiares. Talvez na hora da concepção, algum cromossomo paterno, vá para o filho, e no futuro esse cromossomo falte ao pai, lhe negando as características próprias.

  O mundo as vezes economiza estruturas labiais e as feições endurecem. 

  Por certo o filho reconheceria o pai, e o pai sorriria.

 Nada que nunca tenhas tido pode fazer falta realmente, então deve estar tudo no seu lugar certo. Cada um encenando seu papel. Cada cena com sua trilha sonora pré-determinada.

  Alguns textos jamais serão lidos por quem realmente os entenderia, e isso não faria a menor diferença.






sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Branco




Não acredito em verbos conjugados no passado, não acredito em gente calada, em linearidades, muito menos em certezas ou verdades.
Não acredito no vazio e nem no verão.
Não creio em bolo com glacê e nem em pudim de pão, coisas muito doce no geral não são confiáveis, bacias de plástico e saleiros são estranhos.
Se um recado está pendurado em uma colher de pau deve ter um assunto duvidoso, às vezes não.
O vinho pode te surpreender e a vida te decepcionar algumas vezes.
Não acredito em gente que grita e não acredito nas distâncias, não acredito em telefones também.
A distração é algo bom, porém não confiável.
A esquerda é mais antiga que a direita, e a contra-mão é instigante.
O raciocínio lógico é inacreditável e a diferença dos segundos nos anos levam muito tempo para  formar um minuto, isso não deveria ser uma preocupação.
As folhas mortas ainda criam vida e alguma pessoa viva cria morte em seu pensamento supostamente vivo.   O tempo é algo que engana e o relógio mente demais.
O agora já não existe e a luz das estrelas é muito antiga, é uma luz que não está mais lá, mas eu acredito nela.
As promessas são esquecidas e novas são juradas todos os dias.
Os encontros são desencontros de outros encantos e o doce fica bonito em palavras.
A chuva nunca mente e o vento é amigo, mas é muito fácil perder a chave...





quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Saber o sabor



 É que talvez o senso de coletividade das galinhas atrapalhe sua percepção de individualidade ( pode ser que elas sejam como a erva do suco, que não tem identidade, é só uma ervinha de suco, de laranja claro, já que o de melancia é indigesto). Diferente das baleias, pois a crueldade de sua matança é tamanha que justifica tsunamis e não provoca sentimentos de compaixão em indivíduos ocidentais que criam seus próprios apelidos.

  Concordar que os homenzinhos de Liverpool faziam um som que não agrada e sua presença de palco era patética. E que um certo figurão do cenário cult musical nacional é na verdade um mercenário sem capacidade de inovação, bem como, o  mais respeitado entrevistador da televisão também é absolutamente prepotente e intragável.

  Pizza marguerita é boa quando se corta dois pedaços da fatia com o garfo e o resto fica muito mais saboroso se pego com a mão. Esmalte claro deixa mãos femininas interessantes e mesmo que a dona delas seja uma pateta, podem ter um toque charmoso. O vinho de uma determinada região do Chile é pretensioso demais, talvez tanto quanto a região em si. O garçom precisa ser chamado pelo nome, e fica muito engraçado justificando a temperatura inapropriada do vinho escolhido.

  A arquitetura do ambiente é percorrida centímetro a centímetro e algumas coisas são estranhas. De tarde café cítrico não é bom, ainda mais se for fraco, que pode ser relacionado com a indicação de localização do local, não pelo endereço, e sim pelo caminhão de cimento na frente. Tanta interferência em uma cidade tão pequena.

  Mas o importante é nunca pedir uma maquiagem leve à alguém que você não tenha certeza da percepção de leveza. Entregar livros em embrulhos vermelhos pode lhe tirar o sono ( de uma maneira encantadora ) . E a chuva é sempre linda, mesmo que o rímel escorra.