Pensei em palavras bonitas. Achei AFETOS, que é bonito e começa com A, que pode ser um bom começo começar por onde começam as palavras. BONITO também é uma palavra tão bonita, de ver e ouvir, é palavra mista, mas tem BEIJO que é tão BOM. CAMINHO, deve ser bonito porque é por onde as palavras te levam. DEVAGAR, que pode ser tão somente o estado quase estático das coisas e soa às vezes como um De Vagar por entre tantos algos, quase como um DEVANEIO, e De repente aparece tanta palavra bonita que começa com D. EMOÇÃO, que é palavra que ri e que chora, fica ENCANTADA. FEIJÃO porque é grão que tem umbigo. GENTE de todo tipo, que GENTILMENTE passa por nós. HERMETICAMENTE é palavra que eu achava tão complexa quando pequena, entendia que o que estava fechado assim jamais respiraria novamente. IRMÃO acho palavra difícil de lidar. INSPIRAÇÃO é quase um desejo. JAMAIS é palavra tão grande que fica mais bonita quando cabe subentendida. LAMBIDA de cachorro ou de sorvete, é sempre palavra do bem. MAMÃE é palavra MACIA, duas coisas que combinam em BONITEZA que é palavra inventada por gente enfeitada. NATURALMENTE bonita. OPA! Um PARA SEMPRE é coisa difícil de acreditar, mas com certeza bonito. QUERIA; tudo queria sem tanto querer, que parecia indecisão, mas era QUERIDA. Palavra RARA é RICA. SAUDADE é um apego que por vezes incomoda, mas acaba por ser inacabável no peito de quem sente. TEU é esse peito que eu falo que sente. UNIVERSALISMO é a energia da minha fé, FÉ que também é palavra bonita, mas achei que ficaria bem difícil combinar ela com o UMBIGO do feijão, mas tudo bem colocar ela agora aqui, mesmo fora de ordem? VERDADE é bonita PURA, mesmo que ande em extinção. Quero ver achar palavra bonita com X, deixa substituir e usar somente a sonoridade da CHUVA que é palavra que quando acontece deixa a grama e o vaso de CHÁ bem felizes. ZENAIDE era o nome da minha vó e da bicicleta do Chico que foi roubada.
Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..
e o tempo se deita..
(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)
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domingo, 18 de agosto de 2013
domingo, 31 de março de 2013
É que Adeus é uma palavra grande demais
No fundo eu sabia que com a mudança da estação e a chegada dos dias mais frios o enveludamento dos recentes sentimentos finalmente poderia ser traduzido em letras.
Penso que deves estar pintando as paredes da sala agora, cores claras e enquanto providenciavas uma lâmpada provavelmente tenhas pensando em nós, na verdade tive receio de que simplesmente a tenhas trocado, sem lembrança alguma. Esse me é um sentimento bastante forte. O esquecimento, ou a insignificância de tudo que planejamos.
Nos sonhamos tantas vezes; ainda parece o mesmo tempo; ainda parece termos o tempo que nos demos. Tudo parece intacto. Não nos vivemos.
Talvez não estejas pintando a parede de uma cor clara, pode ser que tudo estivesse do teu agrado e nada tenha sido mudado. Acho que não saberei. Imaginei um piso de parquet, quase consigo te sentir.
Continuo usando fones, mesmo sem música; Ainda existe algo de ti nos tons das madrugadas. Muita coisa sobrevive ao que acaba.
Mas acabar não é verbo bonito.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Embonitecer
Nos ensinaram que a felicidade deve ser nossa parte visível, que a alegria é para ser mostrada. Nos ensinaram que somos mais bonitos ao sorrir e ao demonstrarmos contentamento. E o contrário disso, a fragilidade é para ser mantida somente conosco.
Acho que mentiram.
Fomos condicionados a acreditar que sendo aparentemente alegres, as outras pessoas nos amariam mais. Que ao demonstrar fraquezas e falhas, nossos medos e frustrações seriamos de alguma forma rejeitados. Como se a alegria não fosse apenas um estado de espirito coexistindo com uma série de outros sentimentos tão importantes e reais quanto a própria felicidade.
E não somos de alguma forma encantadores quando nos mostramos humanos, frágeis e sem maquiagens? Talvez não seja realmente nosso melhor ângulo, mas quem pode apaixonar-se por um sorriso estático? Quem ama o que nunca muda?
A vulnerabilidade pode ser surpreendente. De repente acontece de sentir dor, de errar, precisar de ajuda, mostrar que é feito de uma alma por entre os ossos. E assim aparece um lado belo, um belo autêntico, sem plasticidades, sem ensaios.
Falta rosto sorrindo de cara limpa, falta o riso e a risada que ficam contidos no sorriso. Falta deixar cair a lágrima quando a emoção toma conta do ser. Falta voltar a acreditar na importância de um pouco de silêncio suportável entre duas pessoas.
Falta embonitecer.
( Pintaram a paixão de vermelho, concordo que seja um clássico, mas os amarelos estão tão suculentos. Amarelo manga, maracujá; E é gostoso não é? Mesmo sem paixão, assim puro amarelo, com o toque ácido, nunca é só doce. Amarelo laranja madura. )
sábado, 19 de janeiro de 2013
Três meses quase dois
Um medo ambíguo, era essa a definição adequada para o sentimento que experimentei durante anos. Esperava que não acontecesse jamais e ao mesmo tempo temia que nunca fosse acontecer.
Era absolutamente assustadora a ideia de ser dominada por um sentimento que me fizesse perder a razão ou a coerência, depois sentia uma sensação de vazio junto com o alívio pelo suposto controle das emoções, temendo viver sem nunca ter provado o que é na maioria das vezes descrito como belo.
Sempre vi os apaixonados como bobos e alucinados; acreditava na racionalidade; em buscar de alguém que se encaixasse no meu padrão pré determinado de pessoa especial. ( Fiz até uma lista com esses itens ).
Alguém que gostasse muito de ler, com um bom gosto musical, que usasse camiseta branca e calça jeans lisa, que deixasse a barba por fazer algumas vezes, que soubesse escolher um bom vinho, preferisse o inverno ao verão, gostasse de cachorros e crianças. Alguém com uma individualidade bastante forte. Que tivesse pontos de vista diferentes dos meus, que gostasse de dormir e de cafés, que já tivesse viajado bastante e quisesse dividir alguns lugares e conhecer tantos outros.
Bastava ser simples, sem carências absurdas e sem necessidade de complementos. Apenas uma companhia agradável e que fosse capaz de tolerar alguns momentos de silêncio demorado. Todo medo esconde sua causa nem sempre abstrata e algumas coisas devem permanecer guardadas.
Penso que me reservei, talvez por um tempo suficiente para entender que todos os esforços racionais são inúteis e inválidos quando se trata de uma paixão. Não uma paixão avassaladora e cega que tanto me assustava, e sim um sentimento de bem querer; querer estar junto, perto. Querer dividir as novidades, encontrar a parte boa do dia, passar a madrugada conversando e nem ver o tempo passar, fazer planos de um futuro bonito.
Planejar dividir livros, músicas, filmes, espaços, imaginar o amparo na hora difícil, a cumplicidade. Criar até soluções para as eventuais discussões e os " emburramentos ".
Superei meu medo. Vivi o sentimento da maneira que sabia. Fiz o que me pareceu ser o melhor para ambos. Uma quase paixão? Talvez. Um quase amor? Poderia ter sido. Gosto de pensar que nos conhecemos na estação errada, amores de verão são rotulados com passageiros, superficiais e frágeis.
Nos demos três meses, vivemos quase dois, e isso é muito para quem nunca teve um dia inteiro. O que fica é um sentimento de gratidão ao próprio sentimento. Ficou uma saudade enorme também, mas isso seria assunto para um outro texto, talvez no outono!
sábado, 29 de dezembro de 2012
Sobre o que se aprende, ou não
Tudo é tão circular que causa vertigem. Pensar que evoluímos enquanto aprendemos e crescemos começa perder a coerência e é chegada a época dos balanços. Com o advento das redes sociais agora esses diários são públicos e repetitivos. Melhoramos? Não sei. Crescemos? Sim, parece que muito, mas não necessariamente evoluímos; Tomara que todos aqueles escritos escancarados em janelas sorridentes tenha algum fundo de verdade, e principalmente aportes. De minha parte, começo achar engraçado ( para tentar usar outra palavra ao invés de Estranho ). Algo sempre muda. Comecei a pensar sobre o fato da evolução ser considerada um acúmulo de experiências. Só posso falar sobre a minha própria, e em relação à isso me sinto confortável quando avalio pela direção contrária. Algo me apontava outro caminho, minha curiosidade jamais deixaria passar. Bela surpresa. O verdadeiro só começou acontecer quando comecei largar as experiências acumuladas e, soltando amarras, esvaziando malas, libertando antigas crenças, buscando ser apenas mais leve. Tudo que tinha foi avaliado e devidamente encaixotado e etiquetado, tomando rumos diferentes (obrigatoriamente), nada ficou no lugar antigo. Quero crer na individualidade sempre, no dentro pra fora. Certo que isso não será certo para todos, acho bonito e um descanso para a filosofia. Agora com espaço aberto para tudo conseguir respirar, acredito ser a evolução não a soma, mas o desapego de todas as experiências, com avaliação e aprendizado, mas sem acúmulos. Com as mãos vazias e um coração pleno em saber dar, muito mais do que esperar receber. Não quero ter a limitação de esperar ser um ano novo para me libertar do que me incomoda ou para fazer vontades. Não quero anos novos, quero dias inteiros e, só.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Reverência
A menina que me sorri no sinal usa chapéu de arlequim, vestido de colombina e é feliz. Tem um sorriso largo, a pele pintada e a boca vermelha.
Sorri em trocas de moedas, ou ganha moedas porque sorri. Imagino que sorri também quando não ganha moedas.
Ela certamente tem um nome e uma história, abandona tudo e torna-se a menina do sinal.
Ela salta leve entre os carros, saltita. Acho que ama alguém que a ama também, isso a faz feliz. Sorri em ângulos especias, sorri com os braços e com as pernas enquanto colhe moedas com seu chapéu colorido e, mal sabe ela que quem ganha somos nós.
Será que ela mora em uma casa de porta amarela? Ou será que dorme em uma nuvem com forro de prata?
Será que alguém já lhe pediu o nome? Será que alguma vez ela sente medo?
Poderia ser professora do saber sorrir e saber emocionar os pobres mortais que param para ver sua graça simples, de arte de vida, que faz falta em todos aqueles carros apressados que passam e passam, só passam sem reparar que alguém os sorriu.
Era só uma menina de chapéu colorido que me sorriu...
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
A idade do beijo
Beijos pré-datados? Sim, beijos envelhecem. Já nascem adolescentes. Acho que beijos nunca são crianças, ou talvez sejam sim; podem ser como os velhos, que envelhecendo retrocedem e voltam à infância. E talvez a infância do beijo seja sua própria velhice.
O primeiro beijo é adolescente, quase infantil. Mas amadurece muito rapidamente, um beijo jovem é cheio de expectativas. Tem necessidade de superação.
Um beijo adulto é quando o motivo do beijo achou equilíbrio. Tem expectativas reais, precisa apenas cumprir sua função de beijo. Ele pode dar-se ao luxo até de ser um beijo no nariz, e mesmo assim ser cheio de significados. Pode ser um beijo mágico na testa, sabe exatamente o que quer dizer.
Função de beijo é acordar os sentidos, lembrar a cinestesia, como ler ou escrever em braille. Beijo é homeopatia, é carinho, encontro, proximidade, cumplicidade, traquinagem também claro. Beijo é inicio, é celebração. Beijo adulto é bem temperado...
Quando o beijo começa envelhecer, fica morno, sem sal. O beijo morre frio...
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
De algodão
Posso sentar aqui do seu lado?
Pode.
Quantos anos você tem?
Sou pequena ainda.
O que você olha tanto?
Aquela nuvem, vê?
Sim, o quem tem ela?
Quero morar lá.
Morar na nuvem?
Sim!
E como vai ser?
Uma casa linda!
Tem porta?
Não, só janelas e um gato dourado.
Como é gato dourado?
Ele é amarelo que brilha, e tem uma joaninha vermelha no lugar do nariz.
Por que não tem porta?
Porque eu esqueço sempre as chaves.
É bom morar numa nuvem?
Não sei ainda, não moro lá. Mas acho que é especial, como sorvete de uva, sabe?
Por que você quer morar na nuvem?
Para ver os girassóis do alto!
E como vai até lá?
Antes de você chegar, eu tava aqui falando com o vento.
Ele te responde?
Sim, o vento é mágico.
O que ele achou da idéia?
Estranha!
E agora, não vai ajudar?
Vai sim. Ele tem um plano!
Qual?
Falou para eu fechar os olhos.
E?
Fechar os olhos e desejar com um coração bem grande...
Você vai conseguir?
Claro, logo os girassóis estarão floridos...
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