Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016


Eu não lembro do teu perfume. Hoje me dei conta disso e foi como te perder outra vez. Conseguiria te sentir chegando ao longe, por pura intuição. Reconheceria tuas mãos por cada linha delas. Mas teu perfume ficou perdido entre alguma lembrança. Teu cheiro. Quase todo dia vou até tua antiga sala. Já te contei que o bebedouro ainda está naquele mesmo lugar? Tua sala agora é ocupada por quatro professores. Eu não os conheço, invejo a intimidade deles com os espaços que foram teus. Ando por lá procurando algum restinho de ti. Sou uma mendiga, uma andarilha nos corredores que nem lembram mais de nossa passagem. Quando saio do prédio sempre olho para tua janela, se vejo luz o coração dispara e quer voltar. Mas voltar para onde? 

(Em dias assim, penso na possibilidade de termos uma chance, uma única chance de encontrar a pessoa que fará falta para sempre. Eu encontrei. Perdi. Agora vago pelos lugares que nos foram caros e busco por pequenas lembranças. Parece tão pouco, mas é tudo que tenho. Poderia parecer uma loucura e talvez seja, não importa. Pode ser qualquer coisa, mas é só amor. Sempre foi, sempre amor.)



terça-feira, 29 de novembro de 2016




   A história de uma aluna adolescente apaixonada pelo seu professor de filosofia. Livro que me levou de volta a um passado distante e muito presente. Apaixonante, antológico, mágico. Desenvolvi uma ligação afetiva com a história e guardei esse livro na prateleira dos meus favoritos. Leitura rápida, durou apenas uma manhã. Deixou saudade. Deixou uma sensação de vazio no peito. 

( Mesmo que eu o tenha colocado na prateleira dos  favoritos, não é lá seu lugar. Deveria estar perto do mar, ao lado da cama. Deveria ser lido por um professor de economia que teve uma aluna há mais de vinte anos atrás que não entendeu nada sobre as Teorias de Platão. Poderia ser proibido. Deveria ser possível )



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Inquieta procura


Teu perfume magicamente fica nessas páginas. Permanece.
Um presente. Um afago. Uma alegria.
O azul tatuou a leitura. Teu Azul de cílios longos.
Um suspiro. Um abraço. Quase um beijo.
O silêncio não é mais só.
Uma presença. Um átimo. Um querer.
Te sinto aqui. Quase te toco.
Um esperar. Uma lágrima. Uma saudade.
Eu. Só. Tu. Longe.
Tu. Mar. Eu. Terra.
Eu. Aqui. Tu. Onde?





terça-feira, 12 de julho de 2016

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Beauvoir apaixonada - de Irène Frain



( deveria ser a foto do livro aqui, mas amo essa foto... )

     Irène Frain, escritora francesa, formada em letras clássicas, escrevendo a biografia de um amor entre a personagem mais importante da liberação feminina e o bad boy da literatura americana. Como resistir? Pois a obra fica à altura da expectativa que criei na hora que escolhi o livro. Ela desfaz o mito de mártir do feminismo e resgata a imagem de ser humano, a fragilidade das emoções e a força dos laços. Como se não bastasse a grandeza dos personagens já citados, em três ocasiões cita Hemingway, inclusive fazendo alusão à sua obra em um sub-título " Paris foi quase uma festa ". Impossível não considerar um livro admirável.

" É minha vida, e a vivi como quis vivê-la...
O mundo real é uma verdadeira bagunça. " - Simone de Beauvoir

" Finalmente, como imaginar que uma mulher dessa magnitude, no auge de sua inteligência, pudesse viver sob a ascendência de um homem? Subjugação, de qualquer maneira, ele não tinha a menor ideia do que era. Dependência, além daquela de Margo às drogas, só conhecia a sua: ao jogo. Apostas em corridas de cavalos, as partidas de pôquer que jogava regularmente, queimando os adiantamentos recebidos de seu editor. Portanto, depois de Wabansia, era impossível fazer alguma ideia do que aconteceu com Simone na Califórnia: um lento, mas infalível mergulho nas águas tenebrosas do desespero. Tudo porque não tem notícias de Sartre."

" Cruzamos com alguém, nos interessamos um pelo outro, paramos. E o próprio tempo também para. Bom, ele faz que para: de um momento para o outro, acorda. Então nos separamos, porque temos outras coisas mais importantes. Ou porque assim nos parece. Grandes instantes da vida, pequenas mortes."

" A eternidade durou três dias. O sol e o céu azul se obstinaram, ficou cada vez mais azul e mais bonito. Nelson esqueceu seu lado escuro. E Simone, o frio na alma em que vivera até então. Os livros se escreviam neles..."

" Quando examinamos as pedras de âmbar, muitas vezes nelas podemos distinguir, embalsamados no mineral, fragmentos de samambaias ou de insetos perfeitamente conservados, que chamamos de inclusões. Alguma coisa aconteceu, há centenas de milhões de anos, no fundo de uma floresta. Nunca saberemos o quê, entretanto subsiste um traço. Algo que não quer morrer por completo. Essa obstinação fascina, ficamos por vezes fixando neles nosso olhar sem poder nos afastar.
  É o que também acontece com as histórias de amor: mesmo quando já acabaram, fragmentos - restos de cena, palavras em migalhas, gestos alçados em voo - permanecem eternizados na memória dos amantes e não morrem senão com eles. "











Vou fazer um chá para nós.





Dança comigo?

Chegou uma carta para ti.

Como foi teu dia?

Estou aqui.



( Onde será que ficam as coisas bonitas que não ouvimos mais? )

Fica aqui até eu adormecer?