Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Uma última dança




E eu desejei te encontrar sentado na cadeira do jardim, perto das tuas videiras. Em uma sombra do que foi nossas vidas. Tu já velhinho. Te levaria para dentro de casa, segurando pela mão. Lavaria teu rosto e ajeitaria  teu cabelo. Se preciso fosse, apararia tua barba e passaria creme na tua pele cansada. Lavaria teus pés e cortaria tuas unhas. Teu melhor traje,  lembra-te? Te vestiria com ele e te sentaria na poltrona da sala, perto do fogo. Quero te olhar assim. Sentir tuas mãos, que o tempo não conseguiu mudar. Sentir também teu sorriso, que só vi quando menina. 

Sei que as palavras não são tuas amigas e que o vento leva o amor para longe de ti, na maioria do tempo. Faço um chá para nós dois, queres? Engulo teu silêncio junto com o primeiro gole, já estou familiarizada. Mas estar aqui é bom. Tuas mãos aquecidas, chamam as minhas, ainda geladas pelo sentimento derretendo. Assim viro menina com os cabelos que mal encostam na tua cintura, subo nos teus pés e dançamos. Tu lembrarias do grande dançarino que fostes. Estás cansado já, a dança dura pouco, o vigor  ausentou-se de teu corpo. Vais morrer em breve, e a palavra Perdoa-me vai contigo, no bolso do peito. Falou-me com olhos coloridos, os olhos verdes que na chuva eram azuis.

Minhas mãos são como as tuas, minha boca e meu tom também.
                     se tu pudesses imaginar o peso disso sobre mim,
e nem posso abandonar essa casca que me destes.
Carrego teu nome.
                        E também tenho saudades tuas...
                        mas já te perdi, perdi o caminho até ti...
Até as videiras te perderão...



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Olhos verdes




   Não se nasce pai, muitas vezes o filho nasce e o pai fica na incubadora, mas não vinga, é um desencontro. Dois estranhos e empatia não faz milagres.

   Meu pai  me ensinou ser mãe.

   Me ensinou também muito sobre a realidade dos distanciamentos, que nem sempre presença significa proximidade, e que a distancia é muito mais emocional do que física.

  Seria simples se a palavra pai não fosse tão carregada de simbolismos. E seria mais fácil ainda se os olhos fossem sempre da mesma cor e não mudassem se tem sol ou chuva, algumas vezes gelo. Talvez tudo esteja nos olhos. Talvez tudo falte aos meus olhos.

   Seria simples se fossemos simples.


     Eu pude escolher ser mãe. Enquanto filha, não tive essa escolha, o que não me torna menos falha.
  Eu preciso das integralidades.

  Talvez alguns pais não tenham escolhido seus títulos familiares. Talvez na hora da concepção, algum cromossomo paterno, vá para o filho, e no futuro esse cromossomo falte ao pai, lhe negando as características próprias.

  O mundo as vezes economiza estruturas labiais e as feições endurecem. 

  Por certo o filho reconheceria o pai, e o pai sorriria.

 Nada que nunca tenhas tido pode fazer falta realmente, então deve estar tudo no seu lugar certo. Cada um encenando seu papel. Cada cena com sua trilha sonora pré-determinada.

  Alguns textos jamais serão lidos por quem realmente os entenderia, e isso não faria a menor diferença.