Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

Mostrando postagens com marcador dualidade.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dualidade.. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de novembro de 2011

Estranho


Eu jamais teria coragem de te contar quantas vezes já me surpreendi fazendo planos e te colocando neles. Eu até escolhi os sapatos, e nunca te contaria que eles seriam azuis. Eu também não poderia te contar que procuro teu cheiro em quase tudo e que adoraria te ver comendo melancia, sentado na grama em um dia de verão.
   Imagine se eu te contasse que desenho teu rosto no meu travesseiro? E  se tu soubesses que já colhi flores pra ti, só que deixei no vaso da minha mesa. E quantas cartas enormes já te escrevi, quantas mensagens, emails, poderia escrever um livro com tantas palavras. E tudo sem nunca enviar.
  Te desejei bom dia e boa noite à cada manha e à cada anoitecer, só nunca te falei e nem falarei.
  As flores que eu colhi, eram lindas, belas, doces e perfumadas. Coloquei-as no vaso. Ficou lindo, estavam comigo; eram minhas. E cada dia que passava, perdiam vitalidade, por fim murcharam. Se eu as tivesse deixado como faço contigo, elas ainda estariam lá. Ainda seriam belas e poderiam me amar por isso.
  Jamais te contarei. Nunca te murcharei. Nunca te terei. Nunca te perderei... pra sempre meu.


Refúgio

 
O sentimento é narcisista, ele se apega mais a ele mesmo do que ao seu objetivo. Estar sentindo é o que alimenta o sentimento, é meio como a relação dos gatos e os lugares. A gente acha que os gatos se apegam as pessoas, e não é verdade, eles se apegam mais aos lugares, ao seu ambiente. Funciona assim com as paixões também.
   Sem nos darmos conta, sentimos falta não da pessoa, mas do sentimento, de como nos sentimos bem ao seu lado. O cheirinho doce, a mão macia, o jeito perfumado de sorrir, todas essas coisas que nos fazem bem... nos deixam mais leve. Um simples sorrir pode modificar completamente o dia, e a falta dele também. 
   A sensação deliciosa de ouvir: " Como foi seu dia? "; Essa pergunta aparentemente simples, provoca sensações doces, nostálgicas e mágicas. É o saber que alguém te ouve, alguém  que se preocupa, alguém quer te saber. É o sentimento sendo egoísta, o sentimento sendo inocentemente irônico... 
   Os sentimentos são  manipuladores, nos fazem acostumar tanto à  esperar, que por vezes,transformamos isso em um sentimento, acabamos nos apaixonando pelas expectativas da própria espera. E pode ser belo, mesmo quando parece interminável, distante e frio.
   Esperar torna-se então um refúgio, um lugar seguro, sem riscos; um sentimento sem sentimentos...


   

O outro


Um tem os olhos azuis e o outro castanhos. Um mora longe e o outro ficou aqui. Um alimenta-se de cultura e o outro escreve banalidades. Um é o exagero e o outro busca o equilíbrio em tudo. Um é elegância e o outro pura doçura. Um fala muito forte e o outro venera o silencio. Um tem raízes profundas e o outro criou asas. Um socializa tudo e o outro é interiorização total. Um contesta sempre e o outro acha graça. Um ama o cheiro do teatro vazio e o outro guarda flores em  livros. Um racionaliza sempre e o outro é puro coração. Um estuda politica internacional e o outro conversa com anjos. Um tem sonhos materiais e o outro anda descalço. Um tem urgências e o outro busca paz interior. Um é cheio de reservas e o outro também. Um sempre sabe a direção e o outro se perde. Um dorme sempre e o outro raramente. Um tem o riso contido e o outro sorri de alma limpa.  Um é praticidade e o outro agradecimento. Um ama e o outro também. Um pensa muito e o outro age. Um vai adiante e o outro segue. Um encena e o outro ri muito. Um declama poemas clássicos e o outro se emociona. Um planeja jantares sofisticados e o outro come pêras. Um tem calor e o outro dorme de meias. Um ensina e o outro aprende. Um aprende o que o outro ensina. Um é complexo e o outro profundidade. Um coleciona Maggiolinos e o outro quer um unicórnio alado. Um sente falta do sorriso e o outro da mão. Um está longe demais do outro e o outro ainda assim sente o seu perfume...


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma Escolha





De todos os equivocos humanos talvez o maior deles  esteja em tentar explicar, justificar ou classificar sentimentos.

É ilusório e irreal imaginar que se conseguirmos explicar o porquê, sentimos melhor. A justificativa é na verdade uma fuga, é uma tentativa de expressar algo já fadado ao fracasso. Não o fracasso temporal e mensurável, mas aquele que te fala em segredo, interiormente. Aquela voz suave que te fala antes de adormermeceres, a voz que conhece o teu íntimo.
Quando o sentimento acontece, códigos verbais são desnecessários, ocupam um espaço não disponível. Seria como prender uma borboleta em um pote de vidro.
O Sentir é uma transformação interior, uma fala oculta. É uma contribuição antes de tudo individual. Uma grande mudança no íntimo.
O mais difícil de assimilar no sentir, é o fato de que ele precisa ser independente.
A plenitude da verdade do sentimento só acontece quando ele é desvinculado de objetos ou projeções.
Se necessita de um porquê, não é real. Na verdade, pode ser real, mas em outro sentido, uma inversão.
O sentimento nasce como abstrato, precisa amadurecer no abstrato. Se ele nasce no concreto, pulam-se etapas e o ciclo não se completa.
Se  ele  não se bastar, não encontrará na figura projetiva o aporte necessário para sua maturação, fica sem base.
De qualquer maneira, toda forma de sentir leva a algum lugar, mesmo que seja apenas um engano consciente, ou uma fuga solitária...