Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Uma última dança




E eu desejei te encontrar sentado na cadeira do jardim, perto das tuas videiras. Em uma sombra do que foi nossas vidas. Tu já velhinho. Te levaria para dentro de casa, segurando pela mão. Lavaria teu rosto e ajeitaria  teu cabelo. Se preciso fosse, apararia tua barba e passaria creme na tua pele cansada. Lavaria teus pés e cortaria tuas unhas. Teu melhor traje,  lembra-te? Te vestiria com ele e te sentaria na poltrona da sala, perto do fogo. Quero te olhar assim. Sentir tuas mãos, que o tempo não conseguiu mudar. Sentir também teu sorriso, que só vi quando menina. 

Sei que as palavras não são tuas amigas e que o vento leva o amor para longe de ti, na maioria do tempo. Faço um chá para nós dois, queres? Engulo teu silêncio junto com o primeiro gole, já estou familiarizada. Mas estar aqui é bom. Tuas mãos aquecidas, chamam as minhas, ainda geladas pelo sentimento derretendo. Assim viro menina com os cabelos que mal encostam na tua cintura, subo nos teus pés e dançamos. Tu lembrarias do grande dançarino que fostes. Estás cansado já, a dança dura pouco, o vigor  ausentou-se de teu corpo. Vais morrer em breve, e a palavra Perdoa-me vai contigo, no bolso do peito. Falou-me com olhos coloridos, os olhos verdes que na chuva eram azuis.

Minhas mãos são como as tuas, minha boca e meu tom também.
                     se tu pudesses imaginar o peso disso sobre mim,
e nem posso abandonar essa casca que me destes.
Carrego teu nome.
                        E também tenho saudades tuas...
                        mas já te perdi, perdi o caminho até ti...
Até as videiras te perderão...



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Heresia


O delicado cabelo quase totalmente branco estava preso em um coque, com grampos dourados, tinha perfume de flores com açúcar mascavo. Sobre o vestido floral uma manta branca de croche macio, uma meia de lã  e um sapato forrado bege.
Tricotava uma meia  colorida. Ao lado, mais no canto da sala, a pequena menina brincava com uma boneca de pano e prestava atenção nas mãos ageis da senhora na cadeira de balanço, havia uma sintonia entre elas, uma comunicação diferente, algo meio de olhar e um pouco até telepático. Em algum momento antes de escurecer a senhora chamou a menina: - senta aqui mais perto um pouquinho!; Sem responder nada, a menina aproximou-se e ficou agachada ao lado da cadeira, colocou os braços descansando no colo da senhora e a fitava com interesse que só as crianças conseguem manter. Com a voz mais doce possivel ela lhe falou: - Preciso que você preste muita atenção no que vou lhe dizer agora; precisamos combinar algumas coisas antes de eu partir. A menina apenas olhava, mas agora sua expressão mudara, estava levemente surpresa e peguntou: - Você vai viajar? Para onde?; - Então querida, é sobre isso que preciso lhe contar. - Vou para onde as pessoas que já viram muita coisa vão, preciso dormir um pouco, penso em ir morar em uma nuvem. - Vovó, fui que fiz algo errado? A senhora fica muito cansada de ter que cuidar de mim? - Não me doce anjo, claro que não. Eu apenas preciso ir porque é chegada minha hora. De maneira alguma quero que você fique triste. Quero que você apenas me prometa uma coisa muito importante. Promete? - Claro vovó, claro que prometo; pode me pedir qualquer coisa, vou fazer bem certinho e a senhora vai ter muito orgulho de mim. - Eu confio em você. Eu vou para um lugar bom e você vai ficar aqui, eu preciso saber que  ficara bem para isso preciso que  me faça uma promessa. - Sim faço vovó! -De lá da minha nuvem eu vou cuidar de você, e vou saber quando  precisa de mim se o seu sapato for vermelho, entende? - Acho que sim, acho que entendo. A senhora quer que eu lhe mande um sinal né? Sempre que estiver com medo eu uso o sapato vermelho? É isso? Dai eu sei que a senhora vai me ajudar. Certo vovó, isso é facil de fazer. Pode ficar tranquila. -Posso tbm lhe pedir um sinal vovó? - Claro que pode criança. - Vovó, lá da nuvem, a senhora ensina a chuva falar comigo?
Para essa ultima pergunta não houve uma resposta, apenas um longo abraço, o mais longo e emocionado de todos os abraços.
Alguns dias depois a terna senhora partiu, foi morar na sua nuvem e fez lá uma manta prateada. A menina comprou um delicado sapato vermelho e aprendeu a entender a chuva. Sempre pedia para sua mãe lhe contar sobre a sua avó na cadeira de balanço, aquela do cabelo perfumado; a mãe nunca soube responder. Talvez porque a senhora da cadeira de balanço tivesse partido para nuvem exatos 12 anos antes da pequena menina nascer...