Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Palavra


   Companheiro, vem do latim - Cum é com, panis é pão. Um companheiro é a pessoa com quem tu repartes o pão.

   Tem como ser mais bonito?

( Do livro Mil dias na Toscana de Marlena De blasi )


sábado, 28 de setembro de 2013

Tem gosto de pêra


-Como é que ela é? Que gosto tem?
-Descreva, como Hemingway.
-Bom, tem gosto de... pêra! Não sabe que gosto tem uma pêra?
-Eu não sei qual gosto você tem da pêra!
-Doce, suculenta, macia ao paladar, granulosa, tipo areia doce dissolvendo na boca! Que tal?
-É perfeito!

( Cidade dos anjos )








sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Nerude-me ( as cerejeiras passam também pelo outono no outro hemisfério )

O poeta escreveu que deixamos de amar pouco a pouco, e que deveríamos esperar a recíproca.
Gosto mais da parte que ele fala sobre em um dia dar-se conta de estar destinado um ao outro. A surpresa velada entre a promessa e a espera. O que fica encoberto pela aparência do que nunca nos será exposto.

 Impossível não lembrar. 

É sempre uma ilha no poema e, aqui permanece a impressão de que a água salgada nos rodeia, mas só pisamos em areia seca.
Lembra-te que não nos molhamos? 

Por que parece que sempre passo sob as cerejeiras na estação errada? E se o poeta estiver certo e tudo acaba mesmo em tempo igual? 

( Mesmo que agora não possamos ver as flores, alguma coisa ainda é latente. E hoje fez vento que carrega chuva. )





segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A arte de ser leve - Leila Ferreira




  Li esse livro no último sábado. Confesso que escolhi pelo conjunto capa + título + intuição boa; não conhecia a autora e nem tinha lido nada à respeito da obra. E foi uma leitura deliciosa do início ao fim.

  A jornalista e escritora Leila Ferreira, discute temas como gentileza, felicidade, desaceleração e bom humor com uma sensibilidade ímpar. Dei muita risada e por vezes me emocionei durante a leitura. Como sugere o título, um livro leve, mas que consegue ser profundo o suficiente para provocar boas reflexões.

  Não é de maneira alguma um livro de auto ajuda, e sim uma reunião de entrevistas com pessoas que criaram maneiras de tornar suas vidas e a vida em seu entorno um pouco menos carregada. Pontuada de exemplos concretos do bem que a dieta pode fazer ao espírito, a autora viaja por entre os vários caminhos possíveis para tentar chegar ao ponto escolhido com um pouco menos de bagagem.

*
" Há tempos brinco com minhas amigas obcecadas por dietas sobre o perigo que corremos de emagrecer o corpo e ficar com obesidade mórbida no espírito. Corpos rígidos e enxutos, construídos com disciplina mais do que espartana, circulam num mundo cheio de almas adiposas, engordadas pela autocomplacência. Com o corpo, todo rigor é pouco, mas nos perdoamos com enorme facilidade por nossa impaciência, nossa falta de civilidade, nossa incapacidade de ouvir, nossa rispidez. Achamos natural agir de forma desagradável com os outros porque estamos estressados. Mas nossos comportamentos vão deixando o mundo mais estressante. E não são apenas os outros que nos rodeiam que saem perdendo. O peso na alma afeta profundamente a pessoa que o carrega - ainda que não perceba. Seres que passam a vida arrastando correntes são infelizes. Almas gordas, mais do que intoxicar os outros, intoxicam-se.
*

Um livro para começar ler em uma manhã qualquer.





domingo, 1 de setembro de 2013

A perfeição do que pode ser guardado




Eu levo seu coração comigo
( eu o levo em meu coração )
Eu nunca estou sem ele
( a qualquer lugar que eu vá, meu bem, e o que quer que seja feito por mim somente é o que você faria, minha querida )

Tenho medo

Que a minha sina
( pois você é minha sina, minha doçura )
Eu não quero nenhum mundo
( pois bonita você é meu mundo, minha verdade)
E é você que é o que quer que seja o que a lua signifique
e você é qualquer coisa que um sol sempre vai cantar

Aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
( aqui é a raiz da raiz e o botão do botão e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder )
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes.

eu levo o seu coração ( eu o levo no meu coração )

E. E. Cummings



sábado, 31 de agosto de 2013

Toda Poesia




Três itens absolutamente encantadores nesse livro:

- É Leminski, o que dispensaria qualquer outro comentário acerca de sua grandeza e intensidade;

- Tem apresentação de Alice Ruiz, que começa dizendo assim: Este livro é antes de tudo uma vida inteira de poesia. ( Tem como ser mais perfeita no seu trato com as palavras?)

- Chegou pelo correio, como presente do meu amigo anjo, e com dedicatória: 

26/03/2013
Querida Michele, que este livro te leve para um mundo mágico, de rebeldia, contestação e principalmente muita coragem. Torço por você! Beijo.

Bem, foi exatamente isso que aconteceu lendo, aparece o mundo mágico e o que permanece depois é coisa para sempre. É afago da classe das mais importantes. Como diz Alice, a parte analítica critica deixamos para os profissionais, como amante da Poesia só posso agradecer pela ideia de reunirem toda escrita de uma vida em um único volume; de resto só sei que presentes assim vão direto para alma e só tenho à agradecer novamente, mas agora de coração.

*
Aqui, poemas para lerem, em silêncio,
o olho, o coração e a inteligência.
Poemas para dizer, em voz alta.
Poemas, letras, lyrics, para cantar.
Quais, quais é com você, parceiro.
*


( Li o livro na mesma semana que o recebi, mas me faltava conseguir expressar com clareza e fidelidade )



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Não acho que fevereiro possa ser um bom mês, só não pode ser pior que dezembro, mas enfim, essa " tropicalidade " chega carregada de uma nostalgia invernal, e nessa noite de temperatura um pouco mais amena depois da chuva eis que encontro a melhor descrição de um sentimento de inverno que já li:

" No inverno a vida tornava-se atenta a si mesma, compreensiva e íntima. O cheiro se amansava, a lama apaziguava o campo. A voz durante horas silenciosas soava rouca e morna. O ar era úmido, as coisas do quarto isolavam-se através do frio e só a escuridão fundia os móveis. Lá fora a chuva caía sem força, sem cessar. O vidro descido da janela iluminava-se fracamente pela luz dormente do pátio. As gotas escorriam trêmulas, brilhantes, secretas, pela vidraça. Mas as folhas se desprendiam das árvores e arrastadas pelo vento nela batiam num rumor quase imperceptível. Gostaria de contar ou de ouvir uma longa história só de palavras, mas Daniel nesses tempos mantinha-se silencioso e difícil, quase inexistente no casarão. Ela ficava mais sozinha, olhando a chuva. Sentia-se interiormente arroxeada e fria, no seu corpo era lentamente asfixiado um passarinho. Mas isso era tanto viver que as horas decorriam felizes e distantes como se já estivessem marcadas pela saudade. De sua cama larga enxergava o teto perdido nas sombras, as paredes fundindo-se em penumbra. Só a janela brilhava quieta, só o ruído molhado incessante. No ar uma respiração contida pairava no escuro como o bater contínuo das asas duma borboleta. Voltava as costas para a janela, movia-se devagar no leito de casal da avó. O existir de borboleta continuava a ofegar com os olhos fixos nela. Um vento de gritos vinha do interior da mata como almas fugindo em desespero. Era uma mistura de vozes de coruja e das águas, do esfregar das folhas, dos últimos estalidos secos antes da umidade, tudo unido na mesma aguda fuga esgazeada, um vento de gritos atravessando o casarão como um sopro. Virgínia puxava a colcha quente e grossa com um pequeno cheiro de cinza. Debaixo dela seu corpo e o estreito espaço que seu corpo ocupava tornavam-se um túmulo familiar. Deixava então que o medo enfim escorresse, agora que estava abrigada. Procurava mesmo não adormecer para sentir tudo até tudo virar-se por si próprio e transformar-se em outra coisa que não o medo. Assim nada perdia do silêncio da noite de inverno. Os dias eram de uma tristeza perfeita que terminava por se ultrapassar e deslizar para uma quietude sem além. Os ramos vergavam nervosos ao vento, a água escorria rápida e brilhante pelas folhas, um impulso sem direção torturava as árvores e do rumor sem ritmo nascia como um grande vento fresco a esperança de amar e viver. "

Clarice Lispector em O lustre

( incrível como partes de  vidas podem caber em parágrafos únicos, estranha sensação de morar em algum livro antigo ).


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Tu



Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda


 Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e outros
Contentam-se em ser amados.
Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Diga prá mim: De nós dois
Quem ama e quem é amado?

Florbela Espanca 



terça-feira, 13 de março de 2012

Pedacinhos



Eu queria ter fotografado as mãos de meu pai.
Queria saber fazer aquele risquinho acima do olho com delineador, mamãe gostava.
Queria ter aprendido rezar como minha avó e entender o vento de chuva como o vô.
Queria ler a amizade como minha irmã e queria ter passado mais tempo com meu irmão.
Queria ter o entendimento imparcial do meu melhor amigo.
Queria aprender me espreguiçar como meu gato e andar descalça na terra como minha irmã menor.
Eu queria entender de cinema como minha melhor amiga e queria saber fazer tranças no cabelo da minha filha. Queria entender de gente tanto quanto meu cachorro sabe de mim.
Queria dormir simples como meu filho.
Eu queria  sorrir leve como a menina que faz malabaries no sinal.
Queria que cada vontade dessa pousasse leve no meu coração hoje e que eu pudesse carregar esses pedacinhos de felicidade embrulhados com pano colorido e laço de fita...


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Saber o sabor



 É que talvez o senso de coletividade das galinhas atrapalhe sua percepção de individualidade ( pode ser que elas sejam como a erva do suco, que não tem identidade, é só uma ervinha de suco, de laranja claro, já que o de melancia é indigesto). Diferente das baleias, pois a crueldade de sua matança é tamanha que justifica tsunamis e não provoca sentimentos de compaixão em indivíduos ocidentais que criam seus próprios apelidos.

  Concordar que os homenzinhos de Liverpool faziam um som que não agrada e sua presença de palco era patética. E que um certo figurão do cenário cult musical nacional é na verdade um mercenário sem capacidade de inovação, bem como, o  mais respeitado entrevistador da televisão também é absolutamente prepotente e intragável.

  Pizza marguerita é boa quando se corta dois pedaços da fatia com o garfo e o resto fica muito mais saboroso se pego com a mão. Esmalte claro deixa mãos femininas interessantes e mesmo que a dona delas seja uma pateta, podem ter um toque charmoso. O vinho de uma determinada região do Chile é pretensioso demais, talvez tanto quanto a região em si. O garçom precisa ser chamado pelo nome, e fica muito engraçado justificando a temperatura inapropriada do vinho escolhido.

  A arquitetura do ambiente é percorrida centímetro a centímetro e algumas coisas são estranhas. De tarde café cítrico não é bom, ainda mais se for fraco, que pode ser relacionado com a indicação de localização do local, não pelo endereço, e sim pelo caminhão de cimento na frente. Tanta interferência em uma cidade tão pequena.

  Mas o importante é nunca pedir uma maquiagem leve à alguém que você não tenha certeza da percepção de leveza. Entregar livros em embrulhos vermelhos pode lhe tirar o sono ( de uma maneira encantadora ) . E a chuva é sempre linda, mesmo que o rímel escorra.