Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Dorme


Sonhei contigo, não te ouvia e estavas longe.
Estás longe. Não consigo te tocar.
Não consigo te ouvir.
Sinto e não quero crer.
Fecho os olhos e só lá te encontro.
Busco tua mão e acabo por me perder na procura.
Sinto o que não quero sentir.
Busco o que não encontro.
Quero o que talvez não seja para mim.
Quero um querer que não é palpável.
Sonhos são apenas para lembrar da impermeabilidade de tudo.
Apenas miragem no meio de um descanso raro.
Injusto te sonhar assim.
Cruel te ter longe.
Sonhos são apenas sonhos que às vezes nos mostram o que não queremos ver.
Palavras que não chegam e a voz que não ouço.
Nem tão pouco óbvio assim.

( era só para te contar que sonhei uma falta de ti, uma ausência grande que parece ainda maior em dias assim. )


sábado, 31 de agosto de 2013

Silenciosamente atemporal


Tento ser silêncio, e em silêncio entender o que é impossível em meio a tantas palavras perdidas de discursos absolutamente vazios. Tanta coisa subentendida, tanto a aprender ainda. Tanto para ser revisado. E pensar que passamos a vida tentando ter razão.

Penso em ter cada vez menos razão e cada dia mais tempo para ter tempo de me afastar da temporalidade. Perder a medida e a pressa. Girar no sentido anti horário e sem qualquer pretensão caminhar como os nômades. Em silêncio dessa vez;





sábado, 17 de agosto de 2013

Um dia





- Pensei em planos hoje logo cedo; a caminho de casa demorei um pouco mais do que o habitual. Acho que não tenho grandes planos. Rego algumas plantas. Faço bolo de maçãs. Cuido dos meus gatos e do cachorro. Quando chego quero roupas macias e um pouco de café. Depois um banho, puro, pode ser rápido, mas que seja quente; sim, café e banho, os dois puros e os dois quentes. Os dois sempre. Para tudo que o dia insiste em acumular, lavar o rosto é quase que ritualístico. Um bom dia é quando sobra um  tempo para dormir depois de ler, importante poder dormir depois de ler; fica mais fácil de sonhar ( isso parece um plano ). Antes de dormir uma oração pelos que amo, um beijo em cada um deles também.

- Então acho que por hoje era isso. Parece pouco mas é o bastante. 



sábado, 18 de maio de 2013


Somos o esquecimento. Feitos de matéria que acaba e sem que nada mude a inexistência nos ocupa. O espaço do que nos coube torna-se o vácuo de alguma sombra. A própria temporalidade; quase palpável. Uma desconstrução. O eu improvável que prende-se entre o permanente e o vazio. Vertigem em espiral. O verbo e o fim. A perda. Um eco de toda distância que foge do compreensível. Chove muito pouco para um outono que pretende acontecer mesmo sem que estejas aqui.


domingo, 21 de abril de 2013

Orvalhadas





E se não Deus, quem é que vem regar essas flores nas madrugadas?
Que será que ele pensa enquanto as embala em um sonho de chuva?





domingo, 31 de março de 2013

É que Adeus é uma palavra grande demais




No fundo eu sabia que com a mudança da estação e a chegada dos dias mais frios o enveludamento dos recentes sentimentos finalmente poderia ser traduzido em letras.

Penso que deves estar pintando as paredes da sala agora, cores claras e  enquanto providenciavas uma lâmpada provavelmente tenhas pensando em nós, na verdade tive receio de que simplesmente a tenhas trocado, sem lembrança alguma. Esse me é um sentimento bastante forte. O esquecimento, ou a insignificância de tudo que planejamos.

Nos sonhamos tantas vezes; ainda parece o mesmo tempo; ainda parece termos o tempo que nos demos. Tudo parece intacto. Não nos vivemos.

Talvez não estejas pintando a parede de uma cor clara, pode ser que tudo estivesse do teu agrado e nada tenha sido mudado. Acho que não saberei. Imaginei um piso de parquet, quase consigo te sentir.

Continuo usando fones, mesmo sem música; Ainda existe algo de ti nos tons das madrugadas. Muita coisa sobrevive ao que acaba.

Mas acabar não é  verbo bonito. 




sexta-feira, 15 de março de 2013

Embonitecer


Nos ensinaram que a felicidade deve ser nossa parte visível, que a alegria é para ser mostrada. Nos ensinaram que somos mais bonitos ao sorrir e ao demonstrarmos contentamento. E o contrário disso, a fragilidade é para ser mantida somente conosco. 

Acho que mentiram.

Fomos condicionados a acreditar que sendo aparentemente alegres, as outras pessoas nos amariam mais. Que ao demonstrar  fraquezas e falhas, nossos medos e frustrações seriamos de alguma forma rejeitados. Como se a alegria não fosse apenas um estado de espirito coexistindo com uma série de outros sentimentos tão importantes e reais quanto a própria felicidade.

E não somos de alguma forma encantadores quando nos mostramos humanos, frágeis e sem maquiagens? Talvez não seja realmente nosso melhor ângulo, mas quem pode  apaixonar-se por um sorriso estático? Quem ama o que nunca muda? 

 A vulnerabilidade pode ser surpreendente. De repente acontece de sentir dor, de errar, precisar de ajuda, mostrar que é feito de uma alma por entre os ossos. E assim aparece um lado belo, um belo autêntico, sem plasticidades, sem ensaios. 

Falta rosto sorrindo de cara limpa, falta o riso e a risada que ficam contidos no sorriso. Falta deixar cair a lágrima quando a emoção toma conta do ser. Falta voltar a acreditar na importância de um pouco de silêncio suportável entre duas pessoas. 


Falta embonitecer. 

( Pintaram a paixão de vermelho, concordo que seja um clássico, mas os amarelos estão tão suculentos. Amarelo manga, maracujá; E é gostoso não é? Mesmo sem paixão, assim puro amarelo, com o toque ácido, nunca é só doce. Amarelo laranja madura. )












quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Quando a retina mofa


Quando ressurge esse verde acusador nos teus olhos, desejo ardentemente arrancá-los, não de ti; de mim. Um desejo visceral, latente como um único sentimento na eminencia de materialização da força em minhas mãos nessa hora. Não quero mais que isso permaneça na menina que fui, adultou-se toda forma  de dor contrária. Tua retina é parte do que pesa em meus ombros. Tua presença é a falta de um simbolismo maiúsculo. Uma paternalidade cruel. Machuca-me a carne com a cor. Dói-me a frieza tua que agora corre por todo meu corpo. É gelo. Maldito sejas tu e todo teu amargor. Malditas sejam tuas pupilas que nunca reagem à leitura de outros olhos. Malditas sejam as lágrimas que brotam entre castanhos. Maldita seja essa minha insistência infantil em tentar permanecer aqui. Maldita seja eu descendente dessa tua linhagem mofada. 

( Porque escrever é sagrado e tu não sabes ler; a sombra dos mortos pousa na horizontalidade. Nunca saberemos entre tu e eu quem morreu primeiro )
Sobre os exercícios de afastamentos, sobre a libertação de uma ausência permanente. Sobre eu mentir em relação ao que sinto. Sobre querer deixar transbordar a raiva que brota quando derramas sobre mim tua frustração. Sobre a promessa de jamais trocar a água das tuas flores. Sobre a certeza de que não existirão flores naqueles dias. Certamente choverá. Nenhum de nós dois chorará, independente da ordem de ida. Sobre o que não vingou. Sobre teu vinho azedo. Sobre eu nunca ter me curado de ti. Sobre o erro. Sobre o tempo manchado. 


terça-feira, 29 de maio de 2012

As linhas




Dos meus pensamentos ou desejos mais pretensiosos, o maior deles é te imaginar com saudades.

Se assim fosse, imaginaria que a  forma ( tua ) de encontrar-me inteira, seria aqui; lendo-me. O  lugar onde posso ser ( eu ), o único lugar onde admitiria também sentir saudades...

E talvez quando eu não mais sentir, não escreva... Por hora ainda tenho longas folhas brancas para riscar, de saudade... Ou as deixe em branco ( de saudade ).







quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

(...)

(..

Todos esses dezembros já é tempo demais
Sempre é muito tarde
Sempre é solitário
É um tempo que não explica
Um tempo longo demais
Um nunca dentro de um para sempre
Mergulhar
Respirar
Voltar
           Sentir...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quem


 Não sou  quem escreve;
também não sou o que escrevo...
                                                   Os escritos me são...


Abstrair



Que sobre espaço apenas para essências
De gente ( as verdadeiras )
De coisas  ( as úteis ou bonitas )
De amores ( no singular )

Pouco, muito pouco.
                                     Suficiente apenas para tornar-se Sagrado...


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Cenário


Dúvidas de sempre
Casa ou apartamento?
Cidade ou campo?
Avenida ou um beco charmoso?
Frente norte, nude no living e branco na suíte...
Tantas escolhas e interrogações e eu nem penso em morar em outro lugar
que não seja capitulo de um velho livro...


domingo, 20 de novembro de 2011

Falta


Preciso da tua mão quando não posso dormir sozinha
quando o destino brinca com nossas vidas
quando vejo o por-do-sol
quando  começo maldizer as distâncias
quando me sinto desorientada
quando chega a fria e linda noite de inverno
quando não posso mais acreditar na poesia.

Preciso da tua mão quando os dias parecem imperfeitos
quando as manhas são silenciosas
quando as estrelas cintilam tristes
quando chega a hora de ir
quando as canções não conseguem ser doces
quando o mundo se agiganta
quando a espera torna-se incompreensível.

Preciso que segure minha mão e me leve até onde o tempo não possa nos encontrar...



Incompleto


Leve é uma manhã de domingo
Macio é fazer carinho no gato
Doce é um natal
Colorido é uma tarde no mini-mundo
Especial é um jardim com lavandas
Diferente é o cheiro que os livros tem
Amável é o abraço da minha avó
Surpresa é quando nem dá para descrever
Simples é o que fascina
Agridoce é a cura pela lágrima
Estranho é vida de adulto
Frio é parecido com drops de menta
Lindo é uma margarida branca
Inesquecível é a pele alva
Triste é não ter um unicórnio alado
Grande é imaginar os dinos maiores que um elefante grande
Sozinho é o olhar marejado de quem fica vendo partir
Metade é uma mão sozinha
Saudade é só o que resta...


sábado, 19 de novembro de 2011

Refúgio

 
O sentimento é narcisista, ele se apega mais a ele mesmo do que ao seu objetivo. Estar sentindo é o que alimenta o sentimento, é meio como a relação dos gatos e os lugares. A gente acha que os gatos se apegam as pessoas, e não é verdade, eles se apegam mais aos lugares, ao seu ambiente. Funciona assim com as paixões também.
   Sem nos darmos conta, sentimos falta não da pessoa, mas do sentimento, de como nos sentimos bem ao seu lado. O cheirinho doce, a mão macia, o jeito perfumado de sorrir, todas essas coisas que nos fazem bem... nos deixam mais leve. Um simples sorrir pode modificar completamente o dia, e a falta dele também. 
   A sensação deliciosa de ouvir: " Como foi seu dia? "; Essa pergunta aparentemente simples, provoca sensações doces, nostálgicas e mágicas. É o saber que alguém te ouve, alguém  que se preocupa, alguém quer te saber. É o sentimento sendo egoísta, o sentimento sendo inocentemente irônico... 
   Os sentimentos são  manipuladores, nos fazem acostumar tanto à  esperar, que por vezes,transformamos isso em um sentimento, acabamos nos apaixonando pelas expectativas da própria espera. E pode ser belo, mesmo quando parece interminável, distante e frio.
   Esperar torna-se então um refúgio, um lugar seguro, sem riscos; um sentimento sem sentimentos...


   

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Procurando


Se vivêssemos em um mundo real, não existiriam açougueiros e nem bancários.
No nosso imaginário, pianistas vivem como se fossem farmacêuticos, contadores de histórias são feirantes, fadas do dente podem ser ortodontistas e bailarinas são vitrinistas.
Não sei ao certo como viemos parar nesse terreno tão irreal e tão diferente do que realmente somos, mas em alguma parte do caminho ficou nossa essência. O nosso verdadeiro ser.
Imagino que tenha ocorrido algo muito grave, para que fôssemos obrigados a usar nossa imaginação de forma tão incisiva, e deve ser muito perigoso tentar descobrir os porquês, afinal, crise existencial explica quase tudo.
A aceitação definitiva do imaginário implica na perda do real.
E perder-se do mundo real, é perder a capacidade de ver as coisas na sua totalidade. É simplesmente aceitar como verdade absoluta  o que é transitório e mensurável. Quando a realidade perde-se na imaginação, não nos vemos mais sem as fantasias.
Acho que me vestiram essa fantasia de hoje, quando, lá no mundo real descobriram que eu tinha medo do escuro, me ensinaram como a luz funcionava e fui ajudar quem tinha medo também, na verdade o que me ajudava era  apenas escrever histórias com finais doces.
Quando o imaginário me permite ser real; sou apenas eu, papel e um lápis.
E você? Quem era você no mundo real sem a fantasia de hoje? ...


Tempo Antes



O tempo se confunde
Esperando o passar de tudo
Procurando um tempo passado
Onde morava antes do tempo agora
Querendo o minuto do tempo além
Sem ver o caminhar lento do tempo hoje
Perdendo-se nas horas do tempo de ontem...