Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..
e o tempo se deita..
(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)
domingo, 15 de dezembro de 2013
Maresia
E era como se todo aquele mal que o corroía por depois dos ossos lhe escorresse em lágrimas grossas, do mais puro sal. O verde que permanecia na retina agora era líquido, descia lento e morno sobre a pele seca e envelhecida, traçando uma linha triste.
Quando a maré sobe sempre arrasta consigo mais do que se pode ver de alguma janela distante.
Assim seria mais um verão.
Ainda assim estaríamos com frio por causa das roupas molhadas.
O sal sempre machuca.
E a palavra que prevê a lágrima também.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Um fio de esperança
Dezembro nunca me sorri.
( o que se pode ouvir é apenas um eco, que permanece preso dentro de velhas latas que nos entregaram quando ainda éramos crianças e podíamos crer inocentemente. )
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Da orfandade
O que sobra é sempre tão diferente do que permanece. Perdoar vai muito além de esquecer. Depois de deixar as janelas fechadas por muito tempo é tão difícil andar calmamente pelas manhãs onde o sol já toma conta do que antes foi apenas uma penumbra. Nunca os olhos mantem-se tão abertos. É sempre uma visão alterada pela meia pálpebra que cai sobre a retina cansada. Deixa-me aqui. Esqueça e siga. Ou fique e peça-me que saia. Mas fale. O silêncio que entra por entre as veias cria uma dormência que arrasta-se por todo ser de quem sente apenas a frieza das cores mais esverdeadas. O sangue que sempre dividiu-nos, a proximidade que insiste nos afastamentos. O tempo que não te muda. O instante das palavras duras que quebram até o que parecia imune à tamanha pequenez. O medo do que fica sobreposto, a formalidade desnecessária. Acho que não tenho foto alguma contigo. Sigamos.
( E há quem duvide da previsibilidade das coisas )
terça-feira, 22 de outubro de 2013
O mapa rasgado
Voltando
Ou talvez fugindo pela direção contrária. Um avesso a tantos caminhos seguros, uma peregrinação solitária. Sem centro e sem buscar o norte de qualquer lugar. Como um não saber andar. Tantos passos com um mesmo sapato que a pegada já nasce deformada. Sem cercas e sem faixas de pedestres, por certo um caminho nada seguro. Uma busca perdida. Uma má sorte de ascendente em câncer e lua cheia em outubro. Um longo passeio entre tudo que ainda não é. As placas marcam uma direção invertida, melhor seguir a intuição, mesmo com as peças que sempre costuma pregar. Encontrar um lugar para curar a insônia ou que pelo menos o travesseiro estivesse vestido com a fronha de margaridas suaves, já gasta pelo tempo e com as marcas de um sono que demora. Um lugar para escrever tudo que a garganta não deixa passar, um tanto a deixar para trás. Existir longe desses passos que todo dia ecoam por sobre nossas cabeças na forma de alguém que não foi convidado a entrar.
Besouros que alimentam-se de pó e olhos coloridos
É sempre um trabalho exaustivo arrumar as gavetas. Fica tanta coisa no fundo de algumas delas que acabam encobrindo a lucidez, a poeira acaba por tapar a coerência e o que nos resta é sempre muito pouco. Nunca o suficiente para que os vidros tenham um aspecto um pouco mais limpo pela manhã. É sempre algo difícil de se tirar; do fundo das gavetas e das superfícies lisas das janelas. Esse acúmulo permanece nas entranhas e corrompe a circulação das pernas, os pés permanecem gelados, não nos levam mais aos lugares claros. A retina também sofre com a poeira. Embaçamento. Sempre há algum besouro seco no meio de tanta coisa guardada, como se fizesse parte de um relicário à essa desordem humana que me consome. Movimentar mãos algemadas é doloroso. Correntes sempre machucam mais do que as cordas e são imensamente mais difíceis de soltar, e os olhos verdes sempre ficam na mesinha de cabeceira, dentro de um copo com água para manter a umidade e a lembrança do que ainda está por vir.
domingo, 20 de outubro de 2013
A sombra pisada ainda dorme no chão
Já se passaram quatro dias do teu aniversário. É como se tivesse esquecido. Quase impossível permanecer indiferente. Teria te comprado um livro. Seria apenas mais um livro e quatro dias é muito tempo para um atraso. Teria te desejado felicidades, tive medo de imaginar como foi teu dia. A memória das xícaras, e em um momento egoísta quis que estivessem guardadas no fundo do armário e que tu nunca tenhas servido café à ninguém nelas. Queria que teu café tivesse terminado; Poderia te encontrar no mercado. Não teria mencionado a data. Seria inevitável não nos situarmos no tempo. Aquele mesmo tempo que perdemos entre agendas lotadas de vidas inacabadas. Restamos inteiros, porém vazios.
( possivelmente outro calendário se faça sem que tua marca esteja no dia de outubro )
Assinar:
Postagens (Atom)

